A exposição “Corpo na cidade – performance em Curitiba”, um dos projetos aprovados no edital de “Ocupação de espaços de exposição da Fundação Cultural de Curitiba”, propõe-se a realizar um primeiro levantamento das ações performáticas que se realizaram nas últimas três décadas na cidade. Apoiado na colaboração de todos os artistas e fundamentado na reunião de variados documentos em jornais, convites, textos, catálogos, publicações de artista, vídeos e fotos, além de obras e videoperformances, o objetivo da exposição é o de produzir uma reflexão artística e histórica sobre estas pesquisas. Não se pretende aqui erigir nenhuma nova tradição da performance, e muito menos advoga-se a busca de uma identidade local, mas sim buscar uma legibilidade do sentido crítico das performances realizadas na cidade e suas discussões de linguagem.
A trajetória da performance, em suas diversas vertentes e denominações – fluxus, happenings, arte do corpo, body-art, ritual, live-art – caracteriza-se inicialmente pela radical experimentação do artista e pelo levantamento de discussões que concernem à própria linguagem das artes visuais e a seu estatuto institucional. Uma compreensão da prática da performance sobre a qual se fundamenta esta exposição é a da presença do corpo do artista usado como suporte, meio e discurso para suas proposições artísticas. A partir daí parte-se para outros conceitos ampliados que abrangem também as ações do artista realizadas diretamente para o público e outras nas quais o artista realiza sua ação para a fotografia, vídeo e impressos; proposições que acionam a participação coletiva; espaços de performação, isto é, aqueles nos quais se sugere a participação do público e instruções de ações a serem realizadas pelo espectador. Finalmente, esta exposição abrange ações realizadas tanto nos espaços institucionais da arte quanto em outros não diretamente ligados à arte.
Entendemos que algo subjaz aos modos de proposição das ações performáticas. Para a pesquisadora Kristine Stiles, a performance constitui-se numa comissura, isto é numa justaposição ou encontro de partes, situações ou realidades. Este conceito de comissura pode ser observado nas operações de justaposição e embate entre o corpo do artista e o do público, entre diferentes corpos sociais ou entre o corpo e distintos espaços físicos e institucionais. Neste “espaço entre”, ou nesta fricção de discursos, a performance nas artes visuais funda sua significação e conquista seu território híbrido de práticas.
Na perspectiva da construção de uma trajetória das pesquisas de performance em Curitiba, podemos situar os anos 70, não como a origem, mas um contexto específico para o surgimento das ações ligadas ao corpo. As primeiras edições dos Encontros de Arte Moderna da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, realizadas entre os anos de 1969 a 1974, foram eventos nos quais se iniciaram as proposições artísticas que podemos denominar de forma ampliada de arte processual. Happenings, performances, intervenções urbanas e ações coletivas pavimentaram novos caminhos de possibilidades e expressão para os artistas locais ao incorporarem um pensamento mais sintonizado com a vanguarda brasileira da época. Importantes pesquisas artísticas, neste sentido, foram realizadas pelos artistas Lauro Andrade, Rettamozo e Sergio Moura.
Na década de oitenta, em plena efervescência da abertura política e no contexto da retomada das liberdades civis, pesquisas diversas em performance tomaram a cidade. Algumas performances ligavam-se a injunções de caráter subjetivo, ou a ficções pessoais – Hélio Leites, Rossana Guimarães Edilson Viriato e Raul Cruz. Pesquisas artísticas de vertente pop-anárquica também estiveram presentes – PH4 e Cesar Almeida. Outras se apoiavam em estudos sobre corpo e movimento – Eliane Prolik, Denise Bandeira e Laura Miranda. Importante também, nos anos 80, foram pesquisas performáticas de caráter coletivo mais comprometido – Sensibilizar e Ary Pára-Raios.
Nos anos 90 e contemporaneidade, as pesquisas de performance apontam vertentes bem diversificadas. Algumas se apresentam num sentido mais pontual de ação para um grupo de espectadores - Adriana Tabalipa, Cláudio Melo, M. Inês Hamann, Debora Santiago, Fernando Ribeiro, Laura Miranda Margit Leisner e Mônica Infante – e outras elaboradas para outras mídias, como vídeo, fotografia e redes digitais – Fernando Ribeiro, Debora Santiago, Fábio Noronha, Tony Camargo, Mohamed, Marga Puntel e Margit Leisner, Cristiane Bouger, Bernadete Amorim. Muito presentes são as proposições coletivas, seja no espaço institucional da arte ou no espaço urbano – Octávio Camargo, Eliana Herreros, Yiftah Peled, Leila Pugnaloni, Interluxartelivre, Júlio Manso, Pipoca Rosa, Carla Vendrami, Ana González, Fernanda Magalhães, Goto, Laercio Redondo, Claudia Washington – e configuradas através de espaços e objetos performativos que buscam a participação do espectador – E/ou, Leila Pugnaloni, Lilian Gassen e Yiftah Peled. Por último, pesquisas heterogêneas, nas quais o ato performático é um decorrente ou um dos vetores de pesquisas mais gerais sobre espacialidade e imagem – C. L. Salvaro e Tony Camargo – e tem presente como um de seus fundamentos as linguagens do teatro e da dança – Clovis Cunha e Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial.
A exposição “O corpo na cidade – performance em Curitiba” realiza-se através de quatro plataformas distintas e interligadas. A primeira delas é dada no Solar do Barão, no qual serão mostrados, nas salas de exposição, os documentos sobre ações performáticas e algumas videoperformances, e no Centro de Documentação e Pesquisa Guido Viaro, material teórico de performance, cópias de algumas publicações expostas e a íntegra dos vídeos apresentados na exposição. A segunda plataforma é a do folder-cartaz e do catálogo, distribuídos em momentos distintos, com a finalidade de trazer informação e reflexão através dos textos críticos e imagens da exposição. A terceira é estabelecida pelos cinco diferentes cartazes espalhados pela cidade. E a quarta é a de um portal informativo e também propositor de novas reflexões através de textos específicos na internet – www.corponacidade.com.br. Todos estes dispositivos, juntos, buscam evidenciar a significativa trama das experimentações artísticas que têm o corpo como ponto de partida e estabelecer seu entendimento em relação às questões mais amplas da arte e da sociedade.